'O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo'
Alberto Caeiro

Na sua opinião, este blog ficaria melhor com ou sem som?


sábado, 7 de Novembro de 2009



Antunes Ferreira
Querem saber
uma coisa? A minha vizinha do oitavo frente comprou uma balança daquelas para a casa de banho - há quem as plante noutra divisória do apartamento, existe gente para tudo – para a qual, no domínio da condução há que tirar o brevet. Carta de ligeiros, mesmo que profissional, nem pensar. De pesados para cima de 18 toneladas, vá que não vá.

Subimos os três no elevador, ela, a balança e eu, e foi assim que tomei conhecimento da ocorrência. Uma caixa quadrangular, com marca e indicações especificadas para o manual de instruções em CD mas igualmente em suporte de papel. Design exterior apelativo e, pela reprodução do fiel instrumento, igual para o mesmo, no interior da embalagem. Não existia papel multicor pressupondo prenda, nem laço a condizer.



Face aos elementos disponíveis entre o terceiro piso negativo (na parede e no ascensor existe um – 3) e o meu, o quinto, depois de análise sintética mas aparentemente fundamentada, concluí que o objecto era para uso próprio da senhora, cujo nome sei por via da pequena etiqueta na caixa do correio. Laurinda da Purificação Alves, presumo que completo.

Nunca falei com ela, a vizinhança outrora tão loquaz é agora muda e queda. Ensimesmada, sorumbática, rarefeita. Ocasionalmente, a regra é quebrada por uma saudação, b‘dia, b‘noite, muito mais raramente b’tarde. As pessoas trabalham, ou dizem que, e por essa razão é mais difícil encontros a tais horas. Nem no hall da entrada, quanto mais no elevador.

Assim, limitei-me a fazer um sorriso e a desejar uma muito boa noite, bem soletrada para que a Senhora Dona Laurinda não tivesse dúvidas sobre a educação que os meus queridos pais me deram, a urbanidade e o civismo, que são igualmente meu timbre. E saí. Fora um dia c-o-m-p-l-i-c-a-do no escritório, a maldita crise dava azo a nervos em franja, a da Beatriz Costa – lembram-se? – não era nada, comparativamente falando.

Comentei o caso do ascensor e da balança que não cai (felizmente, nem um nem a outra) – o Erle Stanley Gardner que me desculpe o quase plágio – com a minha Etelvina. Que também chegara um pouco antes, da hidro-ginástica. «A mulher é um tanto avantajada, lá isso é, donde me parece ter sido uma boa compra» retorquiu-me a minha caríssima metade, enquanto metia um pronto a comer no micro-ondas, mais precisamente bacalhau à Braz producido en Vigo.



«Avantajada é favor; o que ela é, é uma baleia. Nem se queda pelo cachalote, é mesmo uma fêmea abonada, mas sem esguicho. Uma orca, quiçá». E acrescentei que ela até talvez precisasse de um computador para este lhe avaliar o peso... Satisfeito com a tirada, fui até à sala comum para dar uma volta na blogosfera. Intenção excelente, pontaria afinada, tiro falhado. O Quim estava grudado ao msn, o que, forçosamente, originava protesto contínuo da Lenita. O Mateus, no quarto, trocava xoxos informáticos com umas quantas amigas-prestes-a-ser-namoradas e vice-versa. A situação só tinha uma saída: delete e out.

Foi quando soou a campainha da porta. «Renato, vai ver quem é, que estou a fazer a sopa de pacote». Cumpridor, fui. Espanto: era a Dona Laurinda. «O senhor Costa – também tenho o nome pespegado na caixa das cartas com meio caminho andado no endereço, por que bulas não havia de ter? – desculpe, mas queria convida-lo a subir para ir ao meu apartamento…»

A Etelvina, ouvindo voz feminil, avançara igualmente. «Ao seu apartamento, minha Senhora?» com um tom entre a indignação e a censura descortinável a quilómetros de distância. «Pois sim, vizinha. É que não percebo nada da minha nova balança. É electrónica e as instruções são em inglês e em chinês. E não sei onde meter o disquinho. Por isso…»

Depois de recomendar calma, civilidade e paz aos três descendentes, lá fomos. E tomámos um uísque e um gin e petiscámos umas pataniscas de se lhes tirar o chapéu, depois de uns cajus picantes de lamber os beiços. A Laurinda (avançávamos no tratamento, ostracizámos a Dona) revelou que tinha um arroz de pato que só ela, o do Martinho da Arcada nem sombra lhe fazia. Se lhe quiséssemos dar umas dentadinhas… No arroz de pato, tá visto, o que é que estavam a magicar?

Fui lá abaixo avisar a malta, a única coisa que fazia falta, voltei a subir, sempre de ascensor. Eles estão ali, por vezes balançam, mas nunca caem, portanto há que lhes dar uso e justificar o condomínio, que, diga-se, não é barato. Abancámos. E eu, depois de uma aguardente velha – uma, não, duas. Ou terão sido três? - compenetrado e cortês até pus o instrumento a funcionar. A balança, óbvio. Não garanto que tenha escolhido o melhor programa, o caso não era fácil, muito menos as alegadas instruções. Entre o convívio e o procedimento correcto, não dava tempo.

Por vezes, uma Amizade que se presume eterna, começa numa balança. E pesa-se.

(Texto também publicado em http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com, http://cuaoleu.blogspot.com e ligeiramente diferente do saído no SexoForte.net)
Um homem chega ao restaurante, senta-se e, acenando com o braço, diz:
- Faz favor: frango frito, favas, farinheira...
- Acompanhado com quê?
- Feijão.
- Deseja beber alguma coisa?
- Fanta fresca.
- Um pãozinho antes da refeição?
- Fatias fininhas.
O empregado anota o pedido, já meio intrigado: "o tipo fala tudo com F's!"
Depois do homem terminar a refeição, o empregado pergunta-lhe:
- Vai querer sobremesa?
- Fruta.
- Tem alguma preferência?
- Figos.
Depois da sobremesa, o empregado:
- Deseja um café?
- Forte. Fervendo.
Quando o cliente termina o café:
- Então, como estava o cafézinho?
- Frio, fraco. Faltou filtrar formiguinha flutuando.
Aí o empregado pensa: "Vamos ver até aonde é que ele vai".
- Como é que o senhor se chama?
- Fernando Fagundes Faria Filho.
- De onde vem?
- Faro.
- Trabalha?
- Fui ferreiro.
- Deixou o emprego?
- Fui forçado.
- Por quê?
- Faltou ferro.
- E o que é que fazia?
- Ferrolhos, ferraduras, facas... ferragens.
- Tem um clube favorito?
- Fui Famalicense.
- E deixou de ser porquê?
- Futebol feio , farta.
- Qual é o seu clube, agora?
- Farense.
- O senhor é casado?
- Fui.
- E sua esposa?
- Faleceu.
- De quê?
- Foram furúnculos, frieiras... ficou fraquinha... finou-se.
O empregado de mesa perde a calma:
- Olhe! Se você disser mais 10 palavras começadas com a letra F... não
paga a conta. Pronto!
- Formidável, fantástico. Foi fácil ficar freguês falando frases fixes.
O homem levanta-se e dirige-se para a saída, enquanto o empregado ainda lança:
- Espere aí! Ainda falta uma!
O homem responde, sem se virar:
- Faltava.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Como dar prazer a uma mulher


Hoje venho trazer um presentinho para meus queridos do sexo masculino, vou apresentar a vocês técnicas infalíveis de como dar prazer a uma mulher,os conselhos relacionados ao assunto raramente rendem o sucesso esperado.

Mas não é o caso destas cinco técnicas infalíveis. Quer deixar sua parceira "louquinha" de prazer? Comece seguindo estes conselhos. Já experimentei todos rsrs

Técnica nº1 : Mãos Molhadas

Sim, a técnica das mãos molhadas. Certamente a mais popular entre as mulheres. Tão simples. Tão excitante. Você vai deixá-la sem fôlego:

  • Faça sua parceira sentar-se em uma cadeira confortável na cozinha. Certifique-se que ela consegue ver muito bem tudo que você faz.
  • Encha a pia da cozinha com água e adicione algumas gotas de detergente para louça com aroma. (Existem muitos aromas que podem ser utilizados -maçã, limão, lavanda - escolha o que quiser. Se estiver em dúvida, experimente o 'neutro').
  • Segurando uma esponja macia , submerja suas mãos na água e sinta sua pele ser envolvida pelo líquido até que a esponja esteja bem molhada..
  • Agora, movendo-se devagar e gentilmente, pegue um prato sujo do jantar, coloque-o dentro da pia e esfregue a esponja em toda a superfície do prato. Vá esfregando com movimentos circulares até que o prato esteja limpo.
  • Enxague o prato com água limpa e coloque-o para secar. Repita com toda a louça do jantar até que sua parceira esteja gemendo de prazer.

Técnica nº2: Vibrando pela Sala

Esta técnica utiliza o que para muitas mulheres é considerado um "brinquedinho". É um pouco mais difícil do que a primeira, mas com algum treino você vai fazer com que sua parceira grite de prazer.
  • Cuidadosamente apanhe o aspirador de pó no lugar onde ele fica guardado. Seja gentil, demonstre a ela que você sabe o que está fazendo.
  • Ligue-o na tomada, aperte os botões certos na ordem correta.
  • Vagarosamente vá movendo-se para frente e para trás, para frente e para trás... por todo o carpete da sala. Você saberá quando deve passar para uma nova área.
  • Vá mudando gradativamente de lugar. Repita quantas vezes seja necessário até atingir os resultados.

Técnica n°3 : A Camiseta Molhada

Este joguinho é bem fácil, embora você precise de mente rápida e reflexos certeiros. Se você for capaz de administrar corretamente a agitação e a vibração do processo, sua parceira falará de sua perfomance a todas as amigas dela.
  • Você precisará de duas pilhas de roupas sujas. Uma com as roupas brancas, e outra com as coloridas.
  • Encha a máquina de lavar com água e vá derramando gentilmente o sabão em pó dentro dela (para deixar a mulher ofegante, use exatamente a quantidade recomendada pelo fabricante).
  • Agora, sensualmente coloque as roupas brancas na máquina... uma de cada vez.... devagar. Feche a tampa e ligue o 'ciclo completo'.
  • Enquanto você vê sua companheira babar de desejo por você, essa é uma ótima oportunidade para pôr em prática a Técnica nº2.
  • Ao fim do ciclo, retire as roupas da máquina e estenda-as para secar. Repita a operação com as roupas coloridas..
Atenção: Se nesse ponto ela começar a gritar algo como: - "Sim! Sim! Ai! Isso! Ai mesmo! Oh meu Deus! Não pára! Não pára não!" Não pare. Continue até que ela esteja exausta de prazer.

Técnica nº4: O que sobe, desce

Esta é uma técnica muito rapidinha. Para aqueles momentos em que você quer surpreendê-la com um toque de satisfação e felicidade. Pode ter certeza, ela não vai resistir.
  • Ao ir ao banheiro, levante o assento do vaso. Ao terminar, abaixe novamente.
  • Faça isso todas as vezes.
  • Ela vai precisar de atendimento médico de tanto prazer.


Técnica nº5: Gratificação Total

Cuidado: colocar em prática esta técnica pode levar sua companheira a um tal estado de sublimação que será difícil depois acalmá-la, podendo causar riscos irreversíveis a saúde da mulher.
  • Esta técnica leva algum tempo para aperfeiçoar. Empenhe-se com afinco. Experimente sozinho algumas vezes durante a semana e tente surpreendê-la numa sexta-feira à noite. Funciona melhor se ela trabalha fora e chega cansada em casa.
  • Aprenda a fazer uma refeição completa. Seja bom nisso.
  • Quando ela chegar em casa, convença-a a tomar um banho relaxante (de preferência aromático em uma banheira de água morna que você já preparou).
  • Enquanto ela está lá, termine o jantar que você já adiantou antes dela chegar em casa.
  • Após ela estar relaxada pelo banho e saciada pelo jantar, proceda com a Técnica nº1.
  • Preste atenção nela pois o estado de satisfação será extremamente alto, podendo causar coma repentino.
Boa sorte!

http://aartedefazerbemfeito.blogspot.com/
http://crisrubi.blogspot.com/

Cris Rubi

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

video

São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Refrão:
Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado

A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente

Refrão:
Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado

sábado, 17 de Outubro de 2009


LINHAS TORTAS

O mal
e a caramunha


Antunes Ferreira
Esta semana que hoje termina foi dominada pelo caso Maitê Proença. O assunto, de tão divulgado, comentado e criticado, é do conhecimento generalizado. Mesmo assim, aqui o resumo. A «senhora», que já por várias vezes este por cá – para representar em palco e promover os livros de sua autoria, ou seja, para aumentar a sua conta bancária com a colaboração dos Portugueses – tinha feito um vídeo sobre o nosso País em que escarnecia dos Tugas, ou seja, nos insultava com a gozação, e que passara na TV Globo já em 2007, mais precisamente no programa «Saia Justa».

Mas, ainda que com um belo atraso, o episódio chegou aqui. Um chorrilho de asneiras, umas atrás das outras que culminavam com a «distinta» actriz a cuspir na água da fonte existente nos Jerónimos. Coisa pouca, por conseguinte. Sabem-no todos: existe neste País um ditado que reza que quem não se sente, não é filho de boa gente. E os Lusos sentiram que tinham sido ofendidos – e de que maneira. A velha estória de morder a mão que lhe dá de comer.



As televisões passaram o desgraçado vídeo, no qual um grupo feminino (ao que parece constituído pelos elementos do programa e pela própria Maitê Proença) gozava com as alarvidades que a «dona» fabricara. A internet, em consonância com os ecrãs, ampliou o miserável assunto, com a força que se lhe reconhece. Os cidadãos aumentaram o tom dos comentários, excedendo-se até em muitas circunstâncias.

A «ilustre» veio a terreiro, pedir «desculpa» aos Portugueses. Afinal, fora apenas uma «brincadeira». A «actriz» disse que no Brasil, brinca-se com tudo. «Brinco com minha filha do mesmo modo com que brinco com a foto oficial do Presidente da República. Não foi nada ofensivo até porque não houve intenção de ofender». Porém, sempre foi acrescentando que em Portugal (que ama com todas as veras da alma dela) há muita falta de sentido de humor.

As coisas são o que são. Correm pela blogosfera inúmeras listas de censura às estúpidas afirmações da «senhora», algumas como atrás disse, usando termos impróprios para consumo… Voam abaixo-assinados a dizer aos cidadãos que não comprem qualquer livro dela, que não assistam a nenhuma peça teatral, se ela tentar cá voltar e que, pasme-se, mudem de canal quando esteja a ser passada telenovela que ela interprete. E, até, que seja proibida de entrar no nosso País. Somos assim, ou oito ou oitenta.

Se consultarmos as fotos da «artista» no Google encontraremos algumas bem sugestivas, como aqui se documenta. De resto, a «intérprete» da telenovela Dona Beija apareceu também nua na cena do banho na cachoeira. Na altura deu escândalo no Brasil. Não foi, porém, a única vez que se despiu em público. A Playboy brasileira já publicou por várias vezes fotos dela peladinha, no melhor estilo da revista. Mas, não se trata aqui de falso pudor ou excesso de puritanismo: é, tão-só, uma constatação.

O único (ou quase) sujeito a defender a sua dama, foi o Miguel Sousa Tavares, disse-se que ex namorado - de curta duração - dela. Alinhou na alegação da «brincadeira» e reforçou a falta de humor lusitana. Foi o Carmo e a Trindade. Malharam-lhe com ganas, mais do que na expressão do ministro Augusto Santos Silva.

Tenho para mim que a onda de protestos e lamentações já exorbitou das dimensões que deveria ter. Porém, com «desculpas» hipócritas, oportunistas e mal-educadas, a «senhora» só agravou a questão e deu azo a excessos, sempre lamentáveis – e censuráveis. No seu blogue e sobre a miserável cuspidela, deu-se ao luxo de afirmar que «estava imitando a estátua da fonte ao lado, que jorra água pela boca». É retintamente o caso de fazer o mal e a caramunha. Por isso, uma última palavra. Não adianta revolver o punhal na ferida, mas sim, cura-la, mesmo que não fique nunca cicatrizada. A ferida. Porque a «dama» não tem cura possível.

(Versão com alterações à publicada no http://sorumbatico.blogspot.com)
.
De Novo,
Num olhar...
me fez tua,
Num sorriso, me levou ao paraíso
Trouxeste-me de volta o brilho,
Bateu forte o coração,
Reacendeu o fogo de cinzas já gastas
Aqueceu e derreteu o gelo.
Regressada à vida, agora saio a sorrir detrás desta máscara,
Tirei-a para ti e sobrevivi.
Aprendi a viver de novo, sentir o prazer,
Vibrar,
Fechar os olhos e sentir,
Estrelas brilharam em mim,
Não subi ao céu,
mas o recebi pelo teu beijo,
Pelo seu doce abraço.
Segura em tuas mãos,
Me deixei ser mulher...

Cris Rubi

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

do teu prazer...


Eu vou beber a sede da tua boca...
E com a minha, vou despindo o véu,
De todos os cantos que cobrem o teu prazer...

Sinto em meus dedos, o ouriçar da tua pele...
Minha língua molha a rigidez do teu seio...
Sinto o cheiro do teu desgaste prazeroso.

Eu provo o avesso do seu corpo,
Sinto o gosto do seu prazer em minha boca.
Ouço os gemidos que pedem mais e me viciam.

Sou carne que queima no calor que te faz mulher
Sou a dor que te causa prazer e torpor
Sou o dono do estremecer do seu corpo...
Que tira de ti, o molhado que fica em seu lençol....


Hugo Roberto Bher

domingo, 11 de Outubro de 2009

Aquele nó na garganta
Não foi dado por marinheiro
Não foi dado por metade
Engoli-o por inteiro...

Aquele nó na garganta
Era de cordas bem fininhas
Que me prendeu na esperança
Que me desses o que não tinhas

Aquele nó na garganta
Desmanchou o meu pensamento
De repente fiquei sem vida
Tiraste-me o firmamento...

É complicado para mim
Desfazer-me do teu nó
Mas tu quiseste assim
Tornar-me presa ao pó...

sábado, 10 de Outubro de 2009

Afinal sempre era verdade!!!!!!!!!!!!!!

Escutas no Palácio de Belém

Antunes Ferreira
Muita gente ficou na dúvida perante a suspeita levantada por Sua Excelência o Senhor Presidente da República, durante a famiger... perdão, famosa comunicação ao País sobre o chamado caso «Escutas em Belém». A intervenção do mais alto mandatário da Nação (ainda que não saiba exactamente as alturas dos antecessores) recebeu um ou dois apoios, poucos mas enérgicos e entusiásticos e uma caterva de críticas, sabe-se lá porquê. Enfim, somos realmente um País de maledicentes.


A Travessa (http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com), não ignorando o momento menos conseguido de SEXA, envidou os maiores esforços no sentido da averiguação que levasse ao esclarecimento total da momentosa questão. Nesta ciclópica tarefa, muitos foram os Amigos que deram o seu valiosíssimo contributo para as muitíssimas diligências que se efectuaram.


Milhares, para não dizer mesmo centenas de milhar, de imeiles chegaram ao hantferreira@gmail.com, posto de comando e coordenação das averiguações. A todos os seus autores - o mais sentido e singelo obrigado. Bem o merecem. Sobretudo porque se revestiram do interesse mais desinteressado (monetariamente falando) e do empenhamento absoluto, correspondente, aliás, da crise que nos ameaça, mas, que, felizmente, ameaça começar a passar.

Solucionado o imbróglio, só resta à Travessa afirmar que há prova concludente de que as suspeitas do Senhor Silva, (qualificação sincera e lapidar da autoria do Senhor Presidente da RAM, Dr. AJ Jardim) eram uma realidade. Vejam a gravura que elimina todas e quaisquer dúvidas.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009




Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler. E os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.

(José de Almada Negreiros)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

LINHASTORTAS

Trabalhadores

Antunes Ferreira
Nas traseiras da minha casa – apartamento, mais correctamente, um T3 às vossas ordens – existe um pátio cimentado comum aos três prédios que o envolvem. Tratando-se de um quadrilátero, explico que no lado restante há um murito com uma rede de altura suficiente para que as bolas passem a caminho da janela de uma igreja que ali está plantada. E uma ruazita faz a fronteira entre o pátio e o templo, mais mini.



A miudagem vai para lá jogar ao chuto. Por vezes nas canelas, mas não tem importância. Os meus netos, aos sábados e durante parte das férias, são dos mais entusiastas futeboleiros. As pessoas de mais idade, ou seja os cotas, ficam mais sossegadas. Pelo menos, a malta não vai para a rua ou para os charros. E, virtude suprema, os portões de acesso de cada imóvel à sede das jogatanas. E à sede dos briosos atletas. Por via disso, os frigoríficos têm lugares de primeira fila destinados às garrafas de abastecimento.

Um destes dias, vieram uns senhores de capacete laranja, protecção em conformidade com a normativa não-sei-quantos da UE, com uns rolos que, do longe de uns bons cinquenta metros, presumi serem projectos. Pelos vistos, eram. E engenheiros. Conversaram, fita métrica no chão, ai o vinco das calças, e chegaram a acordo. Deduzi, apesar da distância, que acabara a diligência. Foram-se em paz, fumando uns, abstinente o outro.

Dois a três dias depois, eis que surgem quatro briosos e denodados trabalhadores – ou antes, três mais um, que apenas orientava a obra e dava palpites – todos de cobertura craniana, desta feita azul (a diferença entre classes está bem ilustrada nesta policromia) e vá de destruir um terço, mais coisa, menos coisa, do pavimento. Os martelos pneumáticos tornaram-se-me música habitual e pouco celestial. Adiante.

Concluído o levantamento da superfície de cimento, isolamento em três camadas: plástico, no dia seguinte massa negra e finalmente esferovite. Passados mais dois dias, cuidadosamente verificada a textura do revestimento, tijolos, betoneira e adjacentes. A melodia era outra, menos destravada, mais uniformizada, que nisto de rotações em volta do eixo, as máquinas produtoras de betão pedem meças ao globo terráqueo. Eu, em frente do computador, no quarto transformado em escritório/biblioteca, seguia com curiosidade q.b., o desenrolar dos acontecimentos.

Um momento. Quando me refiro à duplicidade entre o antro da teclagem e as estantes livreiras, tenho de confessar que, destas, há uma profusão por estas bandas, carregadas de obras as mais diversas e enfeitadas na frente das lombadas por bibelôs e fotografias da família, em especial dos netos em várias etapas etárias e outros artefactos, entre os quais estojos, com tampas de vidro, de canetas, que colecciono desde que o meu Pai me ofereceu quando fiz com distinção a quarta classe, uma Parker 21.

A interrogação e a inquietação que me vinham ocupando uma boa parte da massa cinzenta fizeram detonar a pergunta. Quero aproveitar a ocasião para sublinhar que o despoletar tão em uso, até por pessoas ditas importantes é uma asneira da primeira ordem. Despoletar, reafirmo - não sei quantas vezes já o disse e escrevi - é tirar a espoleta a uma granada que, assim, fica inerme. Ou seja, não rebenta, nem puuuffff faz.

Fui-me à minha varanda, que dá para o recinto, e os obreiros, alisado o cimento final, erguiam um murinho diminuto, da altura de um tijolo deitado, à volta dessa parte terça do pátio. «Bom dia, podiam responder-me a uma questão?» Aproximaram-se. Perguntei-lhes o que era aquilo.

«Senhor, eu não saber, fazer só o que o patrom mandar». Ucraniano de boa cepa. E, ao lado «Senhor, ieu nu sabe, soi romaneste».
E o terceiro «Spassiba Senhor, mas nom sabe, niet». Russo – mas não de má pêlo, aliás basto e louro, de crista, à maneira. O quarto não estava de momento. «Ser angolês, Senhor, quando voltar vai dizer para falar Senhor». Tinha ido beber uma cerveja e descansar. Há momentos de sorte na vida dos homens. E posições.

E no portuganhês que usavam, lá foram tentando explicar-me que o patrom os arregimentava de madrugada, por baixo do viaduto do Campo Grande, e que eram, nos respectivos países, o ucraniano, contabilista, o romeno, geógrafo e o russo engenheiro-técnico electricista. Tinham vindo para cá em busca de melhores dias. Mas estavam a pensar em voltar; viviam os três num quarto com serventia para a casa de banho (vá lá), ali a Chelas. Um divã e dois sacos cama e disse. Os habituais dramas da imigração. As famílias haviam ficado lá.

Agradeci. «Spassiba, mulţumesc frumŏs e... spassiba». Voltei para o animal informático, a dizer para os meus botões que, afinal, a Senhora Laranja, quando criticara o TGV e o aeroporto de Alcochete não dissera mentiras a propósito de quem trabalhava na construção civil em Portugal. Estrangeiros... Na realidade, ela fora, apenas, chauvinista e segregacionista. Isto é, qualificativos desqualificativos. É a vida.
________________
(Também em A Minha Travessa do Ferreira)

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Da Loucura e Pensamentos


É à beira da loucura, que verás a lucidez...
É próximo da dor quase insuportável...
Que conhecerás sua força...
E quando se sentires mais perdido...
E não souber mais para onde seguir...
Reconhecer-se-ás no espelho,
E mais próximo estarás de encontrar sua essência...
E quanto mais escuro estiver o seu caminho...
Mais sentirás vontade de encontrar a luz...
E quanto mais próximo do fim estiveres...
Mais vontade terás, de voltar ao começo...
Pois certo és, que percorreste um longo caminho...
E analisarás seus erros, com maior conhecimento...
Ninguém poderá julgar-te, pois não sentem o que sentes...
Não vêem o mundo com seus olhos...
Não vêem o teu mundo com sua perspectiva

Mas, se tudo isso falo, eis que parece fácil...
Mas segues nessas linhas, cheias de vazio de uma mente excêntrica...
As únicas coisas, que não deveis fazer nesses momentos sombrios...

Não deixeis levar-te pela loucura...
Não sucumba à dor extrema...
Não vos desesperai por difícil ser, encontrar o caminho...
Não tenhais medo, de conhecer o que de fato és...
Não deixais de abrir os olhos para ver as luzes...
Não se sinta fraco para recomeçar...
Não te envergonha dos teus erros...

Se agora tudo parece mais difícil, é porque de fato és...
Mas algum dia lembra-te de ouvires alguém dizer, que fácil deveria ser teu caminho?


Hugo Roberto Bher.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009



UMA COMUNICAÇÃO INFELIZ E DESPROPOSITADA

O PR e o mons parturiens

Antunes Ferreira
A comunicação
ao País do Presidente da República destinou-se aparentemente a esclarecer dúvidas que quiçá houvesse sobre o caso das alegadas escutas a Belém. Não sei se a expectativa entre os cidadãos era grande e, sendo assim, se aguardavam, preocupados, ou interessados, as palavras de Cavaco Silva. Eu, não. E penso que tinha as minhas razões.

Ouvindo o Chefe do Estado, não me saiu da cabeça a parábola do mons parturiens. A montanha pariu um rato. Se é que se tratava de uma montanha. Finalmente, não foi nem um montículo. Isto porque, se na realidade se tratava de um esclarecimento – não esclareceu nada. A mim, pelo menos, não. Admito que a outros isso também tenha acontecido. Corrijo: a muitos outros. Volto a corrigir: a muitíssimos outros, passe o pleonasmo. A quase todos os destinatários, enfim.



Fiquei a saber que o Presidente faz interpretações pessoais de factos, o que me parece óbvio: quem o não faz? Mas, tomei conhecimento também de que as transmitiu desta feita aos Portugueses «a título excepcional, porque as circunstâncias o exigem». Muito bem. A intenção era boa? Foi, porém, uma chachada. Ocorre-me ainda o ditado que diz que de boas intenções está o Inferno cheio. E foi, ainda, a demonstração do imbróglio que vai por Belém. Quem manda em quem? Quem manda fazer o quê a quem? Quem faz coisas à revelia do Patrão? Diz-se que a Esquerda é hipócrita. Mas também se afirma que a Direita é burra. Quid juris?

Para que as coisas e as interpretações sejam analisadas, recordo aqui algumas das declarações do PR. «Durante o mês de Agosto, na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo à análise dos diplomas que tinha levado comigo para efeitos de promulgação, fui surpreendido com declarações de destacadas personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente da República que interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD (o que, de acordo com a informação que me foi prestada, era mentira)».

«A leitura pessoal que fiz dessas declarações foi a seguinte (normalmente não revelo a leitura pessoal que faço de declarações de políticos, mas, nas presentes circunstâncias, sou forçado a abrir uma excepção)».
«Pretendia-se, quanto a mim, alcançar dois objectivos com aquelas declarações: primeiro - puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD, apesar de todos saberem que eu, pela minha maneira de ser, sou particularmente rigoroso na isenção em relação a todas as forças partidárias. Segundo: desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos».
E,
mais adiante, a propósito das famigeradas escutas relatou o desenvolvimento do assunto e afirmou. «Mas o e-mail publicado deixava a dúvida na opinião pública sobre se teria sido violada uma regra básica que vigora na Presidência da República: ninguém está autorizado a falar em nome do Presidente da República, a não ser os seus chefes da Casa Civil e da Casa Militar. E embora me tenha sido garantido que tal não aconteceu, eu não podia deixar que a dúvida permanecesse.
Foi por isso, e só por isso, que procedi a alterações na minha Casa Civil».
A corrente parte sempre pelo elo mais fraco; é dos livros.

São uns malandros alguns membros proeminentes do Partido do Governo, ou seja do PS. Tentaram, assim, encostar o inquilino de Belém ao PSD. Mas, algumas perguntas: não é Cavaco Silva a mesma pessoa que foi presidente do Partido Social Democrata? Não foi nessa qualidade que chegou a primeiro-ministro de um Governo laranja? Era, pois, preciso tentar colá-lo aos sociais-democratas?

E Mário Soares? Não fora fundador e secretário-geral do Partido Socialista? E Jorge Sampaio não tinha sido também a figura de proa do PS? E Ramalho Eanes não era elemento destacado dos militares que na altura eram força e poder, na sequência do MFA? Regressando no tempo. Américo Tomás não fora da União Nacional, depois Acção Nacional Popular, e convicto seguidor de Oliveira Salazar? E Carmona?

Porquê, então, a necessidade de «personalidades destacadas do Partido do Governo» tentarem essa colagem, aliás natural, ao PSD? E a interpretação pessoal do mais alto mandatário da Nação disse tudo sobre o maquiavélico plano urdido entre o Largo do Rato e São Bento? E Fernando Lima? Foi ou não demitido de Assessor para a Comunicação Social (desde há 20 anos com Cavaco…)?

As interrogações são demasiadas – por isso que não me tenha sentido (e não me sinta) esclarecido. Bem pelo contrário. Um Presidente da República não pode enveredar por caminhos de intoxicação. Que País quer ele representar? E que Republica? Das bananas ou dos bananas? A comunicação ao País foi equívoca e redundante. Nos termos usados foi ineficaz, infeliz e despropositada. E, in fine, o mais prejudicado com a arenga não foi o PS; foi o seu autor, Aníbal Cavaco Silva e a Presidência da República. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

O tempo que ela durou foi enorme - para Cavaco não dizer nada; a sua oportunidade, incrível, e a forma de que se revestiu foi portanto decepcionante. E os jornalistas representantes dos respectivos Órgãos de Comunicação teriam eles ficado esclarecidos? É que nem perguntas foram autorizadas. Uma vez mais há que referir o procedimento de um político de segunda ordem: Barak Obama, o Presidente dos EUA. Valha-nos a Corte Celestial. Toda. Incluindo os suplentes.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009


PAÍS SUI GENERIS

PS perde
maioria
– mas ganha

Antunes Ferreira
Quando
eu andava pelo primeiro ano da Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa aconteceu um caso que nunca mais esquecerei. O professor de Introdução ao Estudo do Direito era Luís Pinto Coelho, salazarista convicto, que depois foi embaixador. Era filho do antigo e prestigiado catedrático José Gabriel Pinto Coelho e pai do meu colega de estudos e grande pintor também de nome Luís Pinto Coelho, infelizmente falecido novo.

Numa das suas aulas quando explicava que havia em Direito instituições, figuras, documentos e outros que se classificavam de sui generis. E como lhe parecesse – penso – que os alunos não entenderiam muito bem a expressão, apressou-se a elucidar que, em Direito, quando não se sabia qualificar uma dessas situações, chamava-se-lhe – sui generis. Coisa especialmente típica de Portugal e dos Portugueses, aditava ainda.

Esta singela estória da minha vida estudantil vem-me frequentemente à memória em geral e muito particularmente nos momentos pós-eleitorais, como é agora o caso. Face aos resultados alcançados nas urnas, verifica-se uma situação realmente sui generis. Todos os partidos ganharam. Cada um dos representantes das forças partidárias chega a essa conclusão e afirma-o alto e bom som, sem qualquer rebuço.

Desta feita, também é assim. Escrevo e de quando em vez vou deitando um olho para as televisões que se guerreiam para que a transmissão de uma seja a melhor de todas. Dada a dificuldade da escolha – muitas vezes o famoso share prega partidas e das grossas – vai-se a ver e todas… ganharam. E lá está ela, a famigerada sui generis a saltar viva da costa, que nem sardinha na lota.

Mas, esta noite, tem ainda uma outra situação sui generis complementar: o único a perder foi o Partido Socialista que, por acaso, até ganhou as eleições. De acordo com os ilustres dirigentes das oposições ouvidos, o grande objectivo de cada um dos seus partidos foi alcançado e daí ter sido uma grande vitória: foi retirada a maioria absoluta ao PS. Confesso a minha ingenuidade e falta de preparação política: julgava que quem concorria a eleições era para as ganhar. Eu, pecador, me confesso…

Daí que os títulos de amanhã sejam, em meu modesto pressagiar: PS ganha – mas perde maioria; ou, quiçá e melhor: PS perde maioria – mas ganha.

País sui generis o nosso.

NE - Escrevi «isto» às 23:00 (TMG) do domingo, 2009-09-27 e mandei por imeile a todos os meus correspondentes portugas e brasucas. Umas quantas respostas chegaram, naturalmente de teores assaz diferentes. Vivemos, felizmente, em Liberdade e em Democracia e… sem asfixia. Alguns, em número suficiente, disseram-me para o texto publicar aqui. Não o tinha pensado quando o redigi. Mas… Quero, no entanto, aproveitar para perguntar aos leitores e cumentadores (com o) deste blogue o que acham deste entrar pela política que não é habitual por estas bandas. Agradeço desde já as respostas - positivas ou negativas. Especialmente estas. Para a Minha Travessa ou pelo imeile hantferreira@gmail.com. E não é que acertei nos primeiros títulos...

reflexo



“Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.” Jean-Paul Sartre

ousei ver além mar
e encontrei-me perdida
entre o labirinto dos olhos
e a luxúria das carnes

descobri mais que par de nós
entoei hinos em louvor
ao deus Príapo encarnado
despido de tolos pecados

válidos e ávidos os refrões
em gozo ecoavam na pele
cada poro nu, eriçado
era Paris ao som de Piaf

Jean abriu-me os horizontes
e vi-me Baudelaire
completa em espelhos
sem sombra, sem ar e rochedos
tive-te em meus dedos

e deixei-te voar

vá meu reflexo aflito
mostrar-se em dissabores
que a tua-minha imagem
há de um dia nos encantar.

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009


A Morte chama

(A peça passa-se no quarto da casa de dois andares de Nat Ackerman, algures em Kew Gardens. Alcatifa de parede a parede. Há uma enorme cama de casal e um grande dossel. O quarto está mobilado e decorado requintadamente e nas paredes há quadros diversos e um barómetro nada atractivo. Música suave quando o pano sobe. Nat Ackerman, um fabricante de roupa, de cinquenta e sete anos de iadde, careca e com barriga, está deitado na cama, acabando de ler o Daily News de amanhã. Veste um roupão e calça chinelos e lê sob a luz de um candeeiro colocado na cabeceira da cama. É quase meia-noite. Subitamente ouve-se um barulho, Nat levanta-se e olha pela janela.)

Nat: Que raio de coisa é esta?
(Trepando desajeitadamente pela janela dentro, surge um vulto sombrio e embuçado. O intruso veste um capuz negro e calças justas também negras. O capuz cobre-lhe a cabeça mas não o rosto, o qual é d emeia-idade e lívido. Parece-se um pouco com Nat. Está audivelmente cansado e raivoso e, saltando pelo parapeito, cai no interior do quarto.)

A Morte (pois não é outra senão ela): Meu Deus. Quase que partia o pescoço.
Nat (olhando embaraçado): Quem é você?
A Morte: A Morte.
Nat: Quam?
A Morte: A Morte. Arranja-me um copo com água?
Nat:
A Morte? O que é que quer dizer com isso de ser a Morte?
A Morte: O que é que se passa consigo? Você não vê o fato negro e o rosto esbranquiçado?
Nat: Sim.
A Morte: Estamos no Carnaval?
Nat: Não.
A Morte: Então eu sou a Morte. E agora pode-me arranjar um copo de água - ou uma água tónica?
Nat: Se isto é alguma brincadeira...
A Morte: Qual brincadeira? Você não tem cinquenta e seta anos? Nat Ackerman? Rua do Pacífico, cento e dezoito? A menos que a tenha perdido - onde é que está aquela carta de chamada? (Remexe nos bolsos até que tira um cartão com uma morada escrita. Parece corresponder.)
Nat: O que é que quer de mim?
A Morte: O que é que que quero? O que é que pensa que eu quero?
Nat: Você deve estar a brincar. Estou de perfeita saúde.
A Morte (sem se impresionar): Hum, hum (olhando em torno). Uma linda casa. Foi você que a fez?
Nat: Tivemos uma decoradora, mas trabalhámos com ela.
A Morte (olhando um quarto na parede): Adoro essas crianças de olhos grandes.
Nat: Ainda não quero ir.
A Morte: Você naõ quer ir? Por favor, não comece. Já me basta o enjoo com que fiquei da escalada.
Nat: Qual escalada?
A Morte: Trepei pelo algeroz. Queria fazer uma entrada dramática. Vi as enormes janelas e você a ler, acordado. Imaginei que merecia uma coisa em beleza. Eu trepava e depois entrava com um pouco de - está a ver... (faz estalar os dedos). Porém o salto de um sapato prendeu-se-me nalguma gavinha, o algeroz partiu-se e fiquei pendurado pelo pescoço. Foi então que a capa se começou a romper. Olhe, vamos embora. Foi uma noite agitada.
Nat: Você partiu-me o algeroz?
A Morte: Partido não está. Ficou um bocadinho entrotado. Você não ouviu nada? Foi cá um estrondo quando caí no chão.
Nat: Estava a ler.
A Morte: Devia estar mesmo absorto (agarrando no jornal que Nat estava a ler). «ESTUDANTES PRESAS NUMA ORGIA DE HAXIXE.» Pode-mo emprestar?
Nat: Ainda não acabei.
A Morte: Hum - não sei como lhe hei-de explicar, pá...
Nat: Porque é que não se limitou a tocar à campainha?
A Morte: Estou a tentar explicar-lhe, podia tê-lo feito, mas qual era o aspecto que isso dava? Desta forma consigo umpouco de dramatismo. Um bocadinho. Leu o Fausto?
Nat: O quê?
A Morte: E se você estivesse acompanhado? Está aí sentado com gente importante. Eu sou a Morte - acha que devia tocar à campainha e agarrá-lo de caras? Onde é que está a sua inteligência?

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

????????????????

Novo passatempo/concurso



Que autor e em que obra?

«Entre nós, a renovação demasiado rápida dos quadros dirigentes (isto é, comedores) nunca lhes deu tempo a polir-se (…) Os arrivistas de todas as épocas, os mercadores do Império, os arrieiros e boleeiros (…) e em geral os novos-ricos (…) com raras excepções, não se têm demorado na berlinda ou à mesa o tempo suficiente para adquirirem maneiras (…); daí, esta atmosfera (…) de salve-se quem puder, de vamos lá acabar com isto, antes que isto nos acabe… Nesta terra tudo é efémero, as fortunas do poleira e as do dinheiro, todos sobem e descem, ou caem, num abrir e fechar de olhos. Os regimes improvisados rodeiam-se de uma camarilha de cascas-grossas e bacharéis sequiosos de boa vida (…). A capilaridade-relâmpago é, no exercício do mando e do poder, o mesmo que na fome de iguarias e ucharias: sôfrega e sobranceira. Sabem que não duram muito, que outros em baixo e ao lado estão igualmente ansiosos de mandar e comer, e não tardarão a empurrá-los para fora do poleiro e da mesa do orçamento».

Ora aqui temos mais um passatempo/concurso da http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com/. É também dedicado a todos os leitores do Espelho, cuja culaboração (com o) muito se agradece.
Estes excertos são de um texto de um grande escritor Português do século passado, com obra vasta e que viveu no estrangeiro uma parte da sua vida. E mais não digo. O desafio que aqui se deixa é: quem é ele e de qual dos seus livros os excertos são retirados?


As respostas têm de ser dadas na Travessa até às 24:00 (TMG) da próxima segunda-feira, dia 21. Como sempre haverá dois prémios que serão dois livros. Ou, quem sabe, três, que é a conta que-deus-fez… Depende do número de participantes e… das respostas.

E é tudo. Obrigado e boa sorte.

???????????????????

sábado, 12 de Setembro de 2009


Treze gotas ao deitar

Há mulheres
que de tudo

são capazes

Antunes Ferreira
A Alice é a
culpada. A Vieira, claro. Não me deixou dormir a noite inteira. Alto lá. desafivelem já esses sorrisos sacanas das vossas faces insolentíssimas. Honni soit. E, pior: ela e mais cinco. Enuncio. A Rosa Lobato de Faria, a Leonor Xavier, a Luísa Beltrão, a Rita Ferro e a Catarina Fonseca. Seis mulheres – é uma multidão. Sendo perigosas – ainda mais é. Um tsunami.

Vamos aos factos. Uma noite inteirinha agarrado a um livro, deitei-me às seis e picos da matina, a Raquel a perguntar-me o porquê de me estar a levantar tão cedo. E eu (que nem lhe disse que era, sim, a entrar no vale de lençóis) – foi por causa das gotas. Gotas? Que gotas? Esta noite começaste a tomar gotas? E, sem esperar pela resposta, a minha cara-metade, virou-se para o lado e recomeçou a ressonar.

Uma cantiga velhinha, hoje interpretada pela verde Maria José Valério, é a que diz no refrão «cuidado, rapazes, cuidado muito cuidado; há mulheres que de tudo são capazes, e a fortuna não está sempre ao nosso lado». Muito bem. É o caso; na verdade, há mulheres que de tudo são capazes. Este sexteto feminino foi capaz de escrever um romance notável e hilariante. E foi também capaz de me levar a lê-lo de fio a pavio durante uma noite inteira.



Ainda não leram o «13 gotas ao deitar»? Não sabem o que perderam. O que perdem. Uma história alucinante em que a protagonista Marina se desdobra em mais três fulanas: a Odete, a Maria Eduarda e a Francisca. A inquirição é sugestiva e perfeita: quantas mulheres existem na cabeça de Maria Marina Silveira Figueiroa? Pelos vistos, quatro.

Mas podiam ser seis, como as autoras. O que ainda traria mais complicações a um enredo já de si labiríntico e gozadíssimo. Não o conto aqui, porem, porque o livro deixaria de ter piada quando o lessem – e os direitos de autor, neste caso das autoras, são para ser respeitados, ainda que num mercado cada vez mais assassino, muita gente não se lembre disso. E os euros estão cada vez mais caros – e raros. Feitios.

Por isso, apenas me limito aqui a registar o facto incontroversamente verdadeiro: nessa noite não preguei olho. E, aparentemente, nada fazia indicar que tal acontecesse. Eu conto. Tinha ido um tanto diletantemente, à fnac do Colombo (é assim mesmo, não se trata de publicidade, palavra), local por demais perigoso, cheio de armadilhas, veja-se que foi lá que lancei o meu «Morte na Picada»… E fui passando pelas estantes, juro que para ver se tinham saído novos policiais. Sou um verdadeiro louco por eles.

Nisto, insidiosamente, surde duma delas, carregada de autores portugas, um romance, «13 gotas ao deitar». Bom título. Óptimo. O jornalista nunca deixa de o ser e está tudo dito. Escrito por? À cabeça do gang a Alice Vieira. E entre as conjuradas, a filhinha Catarina que conheci miúda e bem, com uns chupas à mistura, na Redacção do DN.

A Alicinha, além de grande e fiel Amiga (o bacalhau já era), foi minha camarada de trabalho ali no quotidiano. À minha beira, ou quase, pariu o mais lindo livro que algum dia li, «Rosa, minha irmã Rosa» alegadamente para crianças, eu diria, plagiando já não sei quem, dos oito aos oitenta. Foi uma colheita magnífica: o Mário Zambujal lançava os «Bons Malandros», o Dacosta conduzia o «Jipe em segunda mão». Um fartote.

Dito isto, e perante a trama tramada, com assassínios à mistura e tudo o mais, vem-me ao cristalino bestunto um anúncio também já com uns anitos: Com Dum Dum não escapa um! Dum Dum é o fim!

[Aqui entre nós, que ninguém nos ouve (sem h): depois da noite insone telefonei à Alice, dei-lhe conta da ocorrência e - meti-lhe uma cunha. Da próxima vez que houvesse (com h) uma loucura destas, se elas me deixassem, eu podia... Tal como o Mingas, ela disse que sim... mas]

NE - Este textículo foi publicado primeiro no http://sorumbatico.blogspot. Como homenagem justíssima às autoras, será ainda editado em não-sei-mais-onde.

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Linhas Cruzadas

Por vezes nem sei bem o que escrever. Mas sinto necessidade de tal.
Como agora por exemplo.
O que escrever? Falar de que? Dos eternos temas em que toda a gente diz o mesmo e ninguém se cansa?
Cansei-me eu. Mas estou satisfeita. Falei aqui de tudo sem que o leitor compreendesse nada.

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Falo de ti...

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

Florbela Espanca
Copyright © - EspelhoSentido - is proudly powered by Blogger